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saúde mental é um dos pilares fundamentais para o bem-estar humano, especialmente em momentos de alta pressão, como na experiência acadêmica. Nesse sentido, torna-se urgente a discussão sobre estratégias eficazes de apoio e acolhimento dentro do ambiente educacional.
Esse é um tema em que o Centro Universitário São Camilo figura como referência positiva. Em matéria publicada no volume de maio, a revista Em Pauta São Camilo destacou a ação de dois núcleos que contribuem com a melhor vivência acadêmica dos camilianos, oferecendo-lhes assistência ética e humanizada. Nós já enfatizamos o trabalho do Núcleo de Acessibilidade Pedagógica (NAPe) por meio de entrevista realizada com as docentes organizadoras da coleção “Orientações e sugestões práticas”, composta por cartilhas que oferecem caminhos acessíveis para lidar com os desafios cotidianos da vida universitária. Você pode conferir a matéria na íntegra aqui.
Hoje, redirecionaremos a lente para um núcleo que cuida especificamente da saúde mental da comunidade interna, a partir de orientações, encaminhamentos internos e externos e o oferecimento de um espaço seguro de acolhimento: o Apoio Psicológico e Psicopedagógico (Apoio Psi). Neste ano, em parceria com o setor de Publicações, eles lançaram o e-book “Saúde Mental e a Vida Universitária” que propõe uma conversa com o leitor sobre o dia a dia em uma universidade e como lidar com os próprios sentimentos a partir dele. O material conta com a autoria de Murillo Garcia Nascimento e Brunna Oliveira de Carvalho e foi organizado pela docente camiliana, Lydiane Regina Fabretti Streapco.
Ela é a nossa entrevistada de hoje. Confira, a seguir, a troca que tivemos sobre os bastidores da produção, a importância do núcleo “Apoio Psi” no Centro Universitário e qual é a sua visão sobre a pauta da saúde mental ter se tornado cada vez mais presente na discussão dos jovens.
Em Pauta São Camilo: Como funciona o “Apoio Psi” e qual é a sua importância prática para a vivência acadêmica?
O núcleo existe há dez anos e, nesse meio tempo, a equipe se ampliou com a chegada de novos psicólogos, uma psicopedagoga e um médico psiquiatra. Além disso, novos recursos tecnológicos foram implementados e houve investimento na capacitação continuada dos membros da equipe, bem como na oferta de oportunidade de crescimento profissional. O próprio clima institucional é propício a esse crescimento. Por exemplo, os nossos gestores nos conectam com serviços semelhantes presentes em outras universidades por meio de um convênio com o Semesp (Rede Saúde Mental).
Áreas administrativas como a CIPA e a área de segurança do trabalho constantemente buscam parcerias para a produção de palestras, rodas de conversa e outros meios de divulgação voltados aos funcionários. Setores de apoio acadêmico como o Escritório de Relações Internacionais e o Centro de Simulação Realística buscam parcerias esporádicas para o desenvolvimento de ações de sensibilização dos alunos sobre os temas de saúde mental e para colaborar em cursos com vistas ao desenvolvimento de habilidades e competências. O Núcleo de Direitos Humanos e Saúde Mental (NDHSM), o Núcleo de Educação Continuada Docente (NECD) e o Núcleo de Acessibilidade Pedagógica (NAPe) também compartilham saberes e trabalham em prol de projetos interdisciplinares. Como exemplo, temos o curso sobre inclusão, ofertado para os docentes, e a Escola Camiliana de Escutadores, voltada para a formação de lideranças discentes, que já está em sua terceira turma.
Em Pauta São Camilo: As universidades estão preparadas para lidar com o sofrimento mental de seus alunos? Quais são os limites de sua atuação prática?
Sob uma perspectiva geral, o acolhimento psicológico no contexto universitário objetiva o reconhecimento dos impactos causados por essa sobreposição de desafios que ocorre nessa etapa da vida, a fim de que o(a) universitário(a) vivencie o processo de adaptação, de maneira a equilibrar fatores de risco e proteção. Por isso, o regulamento indica que o atendimento seja realizado numa perspectiva breve e focal e atue frente aos entraves comportamentais, afetivos e cognitivos e às barreiras ao aproveitamento acadêmico e ao desenvolvimento integral do estudante.
O Apoio Psicológico e Psicopedagógico, além do atendimento individual, também se dedica à promoção da saúde. Para isso, ele propõe rodas de conversa, grupos vivenciais e oficinas, ações nas mídias sociais e a produção de materiais informativos que visem estimular a convivência, espaços de relaxamento e de autocuidado e o treino de habilidades e competências. Ele também estabelece parcerias com outros núcleos e setores institucionais, seja na elaboração de aulas, palestras e outros materiais informativos, seja na gravação de podcasts, entrevistas, cursos para professores e funcionários.
Contudo, a depender dos tipos de demanda do aluno, podem ser organizadas diversas outras intervenções específicas. Há casos clínicos cuja indicação mais acertada é o encaminhamento externo para atendimentos psicoterapêuticos de longo prazo ou para avaliações multiprofissionais. Frente a tais demandas, é necessário o reconhecimento do escopo e dos limites do nosso serviço e que seja realizado o rápido encaminhamento para os recursos mais adequados.
Em Pauta São Camilo: Como as universidades podem incentivar a busca dos estudantes por ajuda psicológica?
Existe uma diversidade de referenciais teóricos que podem dar suporte aos trabalhos em prol da saúde mental do universitário. Uma tendência relevante é a da transdisciplinaridade, que preconiza o envolvimento de toda a comunidade acadêmica nessas pautas. Além disso, a construção de uma comunidade que atue em rede é um outro caminho indicado pela Organização Mundial da Saúde.
A comunidade discente deve ser convocada e apoiada a exercer o protagonismo, pois é na convivência cotidiana que os estudantes se tornam capazes de identificar riscos potenciais, notar mudanças sutis de comportamentos ou ouvir declarações e desabafos que denotem crise e intensificação de fragilidades entre seus colegas.
– “Saúde Mental e a Vida Universitária”: descubra o e-book que pode transformar a sua rotina acadêmica
Por isso, os próprios discentes podem se tornar um primeiro anteparo, muitas vezes fundamental para postergar atos impulsivos, em momentos agudos de desesperança. Desse modo, todos que se interessem podem ser capacitados a reconhecer em si e no outro os sinais de alerta, e conhecer e manejar estratégias favoráveis de enfrentamento de crises.
Em Pauta São Camilo: Poderia compartilhar conosco o que motivou a escrita do e-book “Saúde Mental e a Vida Universitária”?

Há alguns anos, a nossa equipe está acumulando reflexões a partir de sua prática no atendimento à população universitária. Ainda que seja compreendida a singularidade dos casos, a vida universitária enquanto período específico do projeto de vida implica demandas, temores e percepções que apresentam certas similaridades. Assim, a produção de um material que debatesse esses temas contribuiria para a democratização do acesso às informações no assunto e convidaria a comunidade a refletir também.
Em primeiro lugar, pensamos em alcançar as pessoas que ainda não tivessem acessado o nosso serviço por razões como falta de demanda, não formulação da queixa, por sentirem algum receio em procurar ajuda ou por estarem sem disponibilidade de tempo. Ao mesmo tempo, sabemos que muitas pessoas vêm compreendendo melhor os seus próprios diagnósticos e passaram a falar sobre eles, a solicitar ajuda e a pleitear recursos de acessibilidade. Alguns sintomas que acompanham quadros ansiosos e depressivos, por exemplo, passaram a ser mais visíveis na convivência social, e as instituições de ensino superior passaram a ser convocadas a trabalhar para que seus alunos não sejam excluídos, punidos ou prejudicados em decorrência das dificuldades inerentes a esses quadros.
As relações sociais, incluindo as relações entre pares, entre professor-aluno, entre funcionários e gestores, devem ser cuidadas, de modo que a comunidade acadêmica participe do desafio, ao mesmo tempo individual e histórico, de luta pela dignidade humana. Essa é a mentalidade que conquistamos e que devemos perseguir, inspirados pelos princípios da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Em Pauta São Camilo: Como os autores selecionaram os temas dos capítulos?
O trabalho do psicólogo nas universidades vinha ganhando destaque mesmo antes da pandemia da Covid-19. Há maior percepção da sociedade, refletida em matérias jornalísticas, por exemplo, sobre o aumento de diagnósticos psiquiátricos nessa faixa etária da adolescência e da juventude, que é o público majoritário das universidades. O e-book buscou apresentar ideias equilibradas que trabalhassem tanto a aceitação dos processos de angústia, preocupação e autocobrança, de maneira menos taxativa, quanto a orientação mais cuidadosa acerca das situações em que é necessário o reconhecimento e adequado manejo de sofrimentos mais graves.
Em Pauta São Camilo: Houve alguma dificuldade na produção do material que gostaria de compartilhar com os leitores?
A maior dificuldade foi a busca por uma linguagem sucinta e atrativa para o público em geral. Certamente, o fato de a equipe ser composta por psicólogos com perfis diferentes ajudou, pois cada um pôde somar ao grupo o seu repertório, os seus referenciais de estudo e as suas percepções. Houve trechos elaborados a partir de uma escrita mais teórica, outros em que foi possível apresentar exemplos práticos e indicações de materiais ilustrativos a partir de uma imagem, um esquema visual ou um exemplo de filme. Tudo para que o resultado fosse o mais leve e acessível possível.
Em Pauta São Camilo: No capítulo de apresentação, os autores optaram por destacar as diferenças de percepção e vivência acadêmica entre estudantes que não vêm do mesmo lugar social, cultural e financeiro. Como essas barreiras influenciam a permanência dos estudantes nas universidades e como elas afetam a sua saúde mental?
A sociedade brasileira se constitui de maneira hierarquizada e a partir de graves desigualdades. Um grande contingente da população é vulnerabilizado e, na perspectiva interseccional, experimenta prejuízos que são agravados por marcadores identitários concomitantes (raciais, de gênero, de faixa etária, de classe). Devemos reconhecer que o acesso à formação acadêmica e aos empregos de qualidade são eventos que dependem da combinação de várias condições sociais.
O Conselho Federal de Psicologia preconiza uma postura profissional que vai além do foco na patologia. Para se compreender a experiência universitária, portanto, precisamos compreender quais estruturas podem reproduzir internamente as violências sociais, muitas vezes simbólicas ou invisibilizadas. Os núcleos de apoio aos alunos trabalham não apenas pela inclusão, mas por processos amplos e eficazes de permanência dessas pessoas.
O desafio é grande, pois muitas violências e exclusões acontecem de maneira naturalizada, atribuindo aos sujeitos dificuldades que correspondem a estruturas mais amplas de desigualdade que, em alguns casos, transcendem os nossos próprios recursos por envolverem a violação de direitos (como moradia, alimentação, saúde) e políticas públicas insuficientes.
Em Pauta São Camilo: Outro ponto que influencia na saúde mental dos estudantes é a rotina de estudos, que sempre vem acompanhada de atividades extras como estágio, trabalho, ou mesmo, cursos à parte da grade curricular pré-estabelecida. Quais são os impactos dessa pressão na saúde mental dos estudantes?
A dedicação aos estudos no nível superior é uma experiência complexa e reúne sentimentos e percepções ambivalentes e contraditórias. Algumas fases podem ser prazerosas, outras amedrontadoras.
– “Saúde Mental e a Vida Universitária”: descubra o e-book que pode transformar a sua rotina acadêmica
Por exemplo, o início da jornada pode envolver a satisfação pela aprovação no vestibular, mas logo pode surgir a idealização de uma ótima performance acadêmica, o medo de errar, a ansiedade pela sustentabilidade financeira e conquista de espaço num mercado de trabalho exigente e competitivo. O investimento financeiro frequentemente envolve um esforço da família, que também nutre suas próprias expectativas. Concomitantemente, o curso exige dedicação de tempo, desgaste físico e psicológico para lidar com a carga horária de aulas, com o aumento de compromissos e a organização da rotina de estudos.
Em Pauta São Camilo: Um dos capítulos do material aborda a “inevitabilidade dos sentimentos”. Qual é a importância do acolhimento no processo de busca por ajuda?
O e-book teve como objetivo a circulação de informações sobre saúde mental na cultura da instituição, inspirando as pessoas a procurar ajuda e compreender que o esforço pelo cuidado em saúde mental é uma fortaleza e não uma fraqueza. Um dos fatores de proteção em saúde mental é o acesso a informações qualificadas sobre diagnósticos e prevenção. Mas é necessária também a despatologização dos processos emocionais que acompanham a experiência humana. Enquanto trabalhamos com a pessoa que procura o atendimento, reforçamos a compreensão de que seu sintoma não se manifestou por sua culpa. Ademais, trabalhamos junto à comunidade para a construção de espaços que promovam bem-estar, senso de pertencimento, incentivo ao desenvolvimento integral e à expressão das singularidades. Ser mais acolhedor com o outro é, em alguma instância, um ato de coragem e de sabedoria, porque já é um primeiro passo para o indivíduo ser acolhedor consigo mesmo.
Em Pauta São Camilo: Os autores já receberam feedbacks sobre o material?
Colegas elogiaram a iniciativa, comentando conosco os trechos de que mais gostaram. Eles nos incentivam a continuar escrevendo, porque compartilham da ideia de que é necessário que esse assunto seja constantemente abordado.
Acredito que seja importante aproveitar as oportunidades de divulgação, inclusive como esta edição da revista Em Pauta São Camilo. Queremos ter a oportunidade de apresentá-lo aos alunos ingressantes, a fim de que conheçam o nosso núcleo, fiquem atentos aos nossos eventos e guardem o e-book para consultas pessoais e, também, para compartilhar com os seus colegas.
Em Pauta São Camilo: Há planos de novas edições sobre o tema?
A nossa equipe está trabalhando na perspectiva de despatologização da saúde mental, a fim de oferecer modelos positivos de desenvolvimento. Pensamos em estimular a exposição a recursos culturais e artísticos que favoreçam a expressão emocional, o autoconhecimento, o aumento do repertório sobre a natureza humana. Por isso, neste ano, estamos elaborando dois e-books que permeiam o campo das artes.
O primeiro aborda a importância da literatura no ambiente universitário. Professores de várias disciplinas foram convidados a escrever sobre a sua relação prazerosa, de relaxamento e aprimoramento afetivo-intelectual com a leitura. Inclusive, uma dupla de alunas que produziu um trabalho de conclusão de curso sobre a biblioterapia também irá apresentar um resumo de suas pesquisas que tratam do valor psicoterapêutico do contato com as histórias.
O segundo e-book é sobre a importância da criatividade em relação ao desenvolvimento do pensamento científico. O conteúdo dos capítulos parte de uma colaboração entre professores e discentes que escreveram sobre temas que lhes são caros, como os jogos de tabuleiro, um grupo de música vocal, a prática da meditação, a escrita performática e narrativa e o resgate de receitas culinárias da família. Entre outros benefícios psicológicos, tais experiências lúdicas, afetivas e criativas são exemplares para compreendermos o desenvolvimento de competências socioemocionais do ser humano.







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