Ciência no feed: uma conversa sobre divulgação científica nas redes sociais

Capa "Ciência no feed: uma conversa sobre divulgação científica nas redes sociais"

Imagem de capa: conteúdo gerado por Inteligência Artificial (IA).

a produção de conhecimento científico, a divulgação é uma das etapas mais essenciais, pois é ela que impulsiona os resultados da pesquisa, permitindo que ela chegue ao público que dela precise. Atualmente, a divulgação científica não conta apenas com o auxílio de revistas especializadas, bases de dados e plataformas como o Lattes, por exemplo. As redes sociais também participam do jogo científico, tornando-se espaços de contato direto com a população, desmistificando crenças populares e derrubando as fake news

Em matéria publicada no volume de maio deste ano, a revista Em Pauta São Camilo explica o porquê de as redes sociais serem o novo front da Ciência no combate à desinformação. Entre os seus benefícios, destacam-se a acessibilidade, a interatividade e a agilidade na disseminação de novas e importantes informações. 

Leia a matéria na íntegra aqui.

Contudo, é bom lembrar que o trabalho de divulgação nas redes sociais precisa ser feito com cautela. Assim como qualquer conteúdo produzido nelas, textos, áudios e vídeos com a temática científica enfrentarão os monstros da desinformação, falta de credibilidade, sensacionalismo, saturação informativa, polarização e questões éticas. Cabe aos criadores de conteúdo agir com responsabilidade, compreendendo as diferenças de linguagem entre redes distintas, mas sem deixar de ter compromisso com a verdade científica. 

Para expandir o debate sobre este assunto, convidamos o prof. Dr. Edison Barbieri, pesquisador do Instituto de Pesca (IP-APTA) e editor-científico da revista O Mundo da Saúde, para comentar sobre o cenário contemporâneo da divulgação científica no Brasil. Ele também é coautor da matéria destacada acima. Confira a seguir. 

Esse processo está relacionado à urgência de refletirmos sobre o impacto das redes sociais na disseminação do conhecimento. Como cientista, vejo que o processo de pesquisa envolve analisar as dinâmicas de comunicação, os impactos sociais e éticos, além de compreender o comportamento do público na era digital. A produção consiste em articular conceitos de ciência, comunicação e tecnologia, sempre atenta às mudanças culturais e comportamentais provocadas pelo uso massivo dessas plataformas. 

A principal diferença estratégica reside na formalidade e na credibilidade. Plataformas acadêmicas como Lattes ou ResearchGate oferecem uma validação mais rigorosa e focada na comunidade científica, enquanto as redes sociais de massa proporcionam alcance e interação instantâneos, embora com menor controle de credibilidade. A escolha depende do objetivo: aprofundamento técnico ou engajamento social. 

Não há uma rede social que seja universalmente mais eficiente, pois cada uma possui particularidades de linguagem, público e alcance. Contudo, plataformas como Twitter/X se destacam pela rapidez na disseminação de notícias e debates acadêmicos. TikTok, por sua inovação na comunicação visual, conquista públicos mais jovens e pode ser extremamente eficaz, se bem usada. 

Concordo que passar a mensagem com responsabilidade e credibilidade é o mais importante.

O canal importa, mas a integridade do conteúdo deve prevalecer, independentemente do meio, considerando o impacto social de ideias e informações.

– Ciência no feed: uma conversa sobre divulgação científica nas redes sociais

Sim, essa “influenciadorização” compulsória pode diluir a autoridade técnica e abrir brechas para pseudociência, além de gerar uma validação superficial. Cientistas devem manter uma postura ética, priorizando a comunicação clara, sem se tornarem meros influencers por influência. 

O ponto de equilíbrio está em compreender que a divulgação científica é uma extensão do compromisso ético do profissional com a sociedade. Onde a paixão pela comunicação é maior que a vontade de moldar uma imagem, o impacto positivo é garantido, sem abrir mão da integridade. 

A contribuição das redes sociais de massa é notável ao democratizar o acesso ao conhecimento, tornando-o mais horizontalizado e acessível, independentemente da origem social ou econômica. Contudo, isso requer uma alfabetização digital constante para que o público consiga discernir o que é Ciência da pseudociência. 

Entre os positivos, eu destacaria a agilidade na repercussão, pois ela permite responder rapidamente às falsas informações, corrigindo rumos na disseminação do conhecimento, especialmente em tempos de rápida mudança social e científica. Já em relação aos pontos negativos, a desinformação e a disseminação de notícias falsas representam uma ameaça fundamental à confiabilidade da Ciência, pois prejudicam a base de evidências que sustenta avanços e políticas públicas. Os cientistas devem dedicar atenção redobrada à clareza, às fontes confiáveis e ao combate ativo às fake news

A distinção entre Ciência legítima e pseudociência exige atenção ao método científico, às evidências replicáveis e à transparência.

– Ciência no feed: uma conversa sobre divulgação científica nas redes sociais

Os usuários devem procurar fontes confiáveis, verificar a origem das informações e questionar afirmações que parecem exageradas ou não fundamentadas. Para não serem enganados, devem avaliar a consistência do conteúdo, buscar múltiplas fontes, consultar especialistas e desconfiar de simplificações extremas ou promessas exageradas. 

Além disso, os produtores de conteúdo precisam evitar o sensacionalismo, manter a precisão, esclarecer os limites do conhecimento e contextualizar as descobertas, fortalecendo a credibilidade social da Ciência. 

Estratégias eficazes incluem o uso de linguagem acessível, promoção do diálogo e a inclusão de múltiplas vozes científicas, além de ações que promovam empatia, empoderamento do público e o combate às bolhas de opinião por meio de debates, fóruns e conteúdo que abordem diferentes perspectivas.

É importante dizer que Ciência não se refuta com opinião e, sim, com dados.

– Ciência no feed: uma conversa sobre divulgação científica nas redes sociais

O interesse a longo prazo depende de uma educação científica constante, que envolva a população de forma contínua, relacionando Ciência ao cotidiano, e não apenas em momentos de crise. 

Sim, o modo como a sociedade percebe a Ciência reflete uma visão, muitas vezes, utilitarista ou instrumental, em que a Ciência é vista como algo útil apenas em momentos de emergência, o que é uma visão limitada. 

Os pilares de uma comunicação científica responsável nas redes sociais incluem a ética, a transparência, o rigor científico, a honestidade na apresentação dos dados, a acessibilidade e o respeito às diversidades. É fundamental manter a integridade do conteúdo, evitar simplificações que possam distorcer a Ciência e promover o diálogo aberto com o público, incentivando a alfabetização científica. Além disso, deve-se refletir sobre o impacto social das mensagens, combatendo a disseminação de fake news e promovendo uma narrativa que valorize a complexidade do conhecimento, sem reduzir a iência a uma mera ferramenta de consumo superficial. 

O futuro da Ciência, da pesquisa e da divulgação científica, tanto global quanto local, é marcado por múltiplos desafios, mas também por possibilidades de renovação e fortalecimento. A pandemia de Covid-19 revelou a importância da Ciência na elaboração de políticas públicas e na solução de crises sanitárias, mas também evidenciou vulnerabilidades, como a desinformação e o acesso desigual ao conhecimento.

No Brasil, há um potencial enorme de fortalecimento institucional e de maior reconhecimento social, mas é preciso investir na educação, na valorização dos pesquisadores e na disseminação da Ciência com responsabilidade social.

– Ciência no feed: uma conversa sobre divulgação científica nas redes sociais

No âmbito global, a cooperação internacional deve ser priorizada, promovendo uma Ciência mais aberta, colaborativa e ética. 

O impacto é profundo, pois influencia no alcance das mensagens científicas. Isso pode resultar em censura, definição de agendas específicas ou na limitação do espaço para vozes críticas e múltiplas. Para os pesquisadores e influenciadores, é essencial diversificar suas plataformas, cultivar redes independentes e promover a ética na comunicação, atuando de forma autônoma, mantendo sua integridade e não se deixando impedir por interesses econômicos ou políticos. Além disso, é importante utilizar estratégias de comunicação que resistam às manipulações, como a verificação de fontes e a transparência na relação com o público. 

Meu recado final é que a Ciência, enquanto potência de compreensão e transformação social, é nossa maior arma contra a desinformação. Ela fornece bases sólidas para a tomada de decisões conscientes, promove o pensamento crítico e fomenta a inovação. Nas redes sociais, a responsabilidade de cada um — seja cientista, influenciador ou usuário comum — é fundamental para construir uma sociedade mais informada, ética e racional. Incentivo que cada pessoa valorize e lute por uma comunicação baseada em evidências, pois é aí que reside a esperança de um mundo mais justo, sustentável e inteligente.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Siga a gente nas redes sociais!
Encarregado de Dados Pessoais: Lee Brock Camargo Advogados