Interview: uma conversa com Amouni Mohmoud Mourad

Capa "Interview mai/2026"

Imagem de capa: conteúdo gerado por Inteligência Artificial (IA).

Dra. Amouni Mohmoud Mourad

Dra. Amouni Mohmoud Mourad

Formação: Doutora em Ciências da Saúde pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo

Farmacêutica com formação em Análises Clínicas e Educação

Atuação profissional: Coordenadora do Curso de Farmácia da Universidade Presbiteriana Mackenzie

Professora universitária nos cursos de Farmácia e Fisioterapia e na Pós‑Graduação em Farmácia Clínica 
Atua com uso racional de medicamentos, educação em saúde e segurança do paciente

Assessora Técnica do CRF-SP e membro de Grupos Técnicos em Educação Farmacêutica, Infectologia e Farmacoterapia


onvidamos a professora e pesquisadora da área da saúde, Amouni Mohmoud Mourad, a refletir sobre os desafios contemporâneos no cuidado com o uso de medicamentos e na formação de profissionais de saúde. A entrevista aborda temas como a automedicação, o crescimento do uso das chamadas canetas emagrecedoras e a influência das redes sociais na construção de padrões de saúde e beleza. Trata-se de uma conversa necessária e atual, que convida à valorização do uso racional de medicamentos, da educação em saúde baseada em evidências e do compromisso ético dos profissionais diante de um cenário marcado por soluções rápidas e pressões sociais cada vez mais presentes. 

1. Pensando na formação de novos profissionais de saúde, como educadora, qual alternativa a professora sugeriria para sensibilizar esses futuros profissionais quanto ao uso indiscriminado de medicamentos sem prescrição e sem acompanhamento de uma equipe de saúde? 

O uso racional de medicamentos sempre foi um princípio central na minha atuação como educadora na área da saúde. Acredito que, se esse conceito se tornar efetivamente incorporado à prática assistencial, poderemos promover uma transformação significativa no atual panorama da saúde.

Entre as estratégias que considero mais efetivas para sensibilizar futuros profissionais sobre os riscos do uso inadequado de medicamentos está a utilização de metodologias ativas de ensino.

Dra. Amouni Mohmoud Mourad

A incorporação de atividades como discussões de casos clínicos e simulações realísticas envolvendo situações de automedicação costuma gerar um impacto significativo, contribuindo para a compreensão de que um medicamento desenvolvido para beneficiar a saúde também pode causar danos, em alguns casos com consequências graves ao organismo. A partir de discussões bem estruturadas, os estudantes passam a reconhecer que reações adversas, interações medicamentosas e atrasos no diagnóstico decorrentes do uso inadequado de medicamentos representam riscos reais. Dessa forma, a formação acadêmica contribui para fomentar o pensamento crítico, a responsabilidade ética e o trabalho em equipe, sempre com foco na segurança do paciente. 

2. Considerando que as redes sociais exercem grande influência nas escolhas das pessoas e, paralelamente, observamos a valorização da estética e dos cuidados com o corpo como padrões de saúde e beleza, enfrentamos um contraponto relevante: pesquisas indicam que, em 2025, 68% da população estava acima do peso. Na opinião da professora, é possível utilizar as redes sociais como ferramenta para conscientizar a população sobre esses temas? 

Certamente é possível, pois as redes sociais representam hoje uma das formas mais eficientes de alcançar a população. No entanto, é fundamental que sejam utilizadas como ferramentas de educação em saúde, ressaltando que o conteúdo divulgado deve estar sempre baseado em evidências científicas e ser apresentado de maneira clara e responsável. Sabe-se que essas plataformas muitas vezes reforçam padrões estéticos irreais e estimulam soluções rápidas, que prometem resultados sem esforço. Considerando que grande parte dos jovens se acostumou ao acesso imediato à informação e resultados em tempo recorde, esses espaços tornam-se também uma estratégia importante para disseminar orientações confiáveis sobre alimentação saudável, prática de atividade física e uso seguro de medicamentos. A diferença estará na forma de comunicação: mensagens curtas, precisas e acessíveis, apresentadas de maneira atrativa, mas sempre comprometidas com a veracidade das informações. Destaco ainda que os profissionais de saúde têm um papel fundamental nesse cenário, atuando como fontes qualificadas de informação e contribuindo para combater a desinformação.

Quando utilizadas de forma ética e educativa, as redes sociais podem ampliar a conscientização da população e promover escolhas mais saudáveis.

Dra. Amouni Mohmoud Mourad

Nesse contexto, a capacidade de adaptação na forma de comunicar será um grande diferencial para os profissionais de saúde que atuam também como educadores. 

3. É cada vez mais comum, seja no convívio familiar ou no ambiente profissional, encontrarmos pessoas fazendo uso de canetas emagrecedoras. Observa-se, inclusive, um aumento expressivo nas prescrições médicas desse tipo de medicamento, muitas vezes como primeira alternativa, em situações em que existem outros protocolos padrão. Gostaria de saber se a professora percebe hoje uma pressão da sociedade sobre a classe médica, o que pode estar contribuindo para esse boom no uso dessas medicações, criando um verdadeiro efeito cascata. 

Seguramente, observa-se que o uso das chamadas canetas emagrecedoras se tornou, nos últimos anos, um verdadeiro fenômeno social. A busca por estratégias que prometam alcançar rapidamente um padrão estético valorizado sempre despertou grande interesse. Atualmente, a forte exposição nas redes sociais, associada à valorização da estética corporal e à promessa de resultados rápidos, acaba gerando uma expectativa crescente por soluções medicamentosas consideradas milagrosas. Esse cenário pode criar, ainda que de forma indireta, uma pressão sobre os profissionais de saúde para prescrever essas terapias, muitas vezes antes mesmo da adoção de estratégias clássicas de abordagem, como mudanças no estilo de vida. 

Por isso, é fundamental reforçar que o tratamento da obesidade deve seguir critérios clínicos bem estabelecidos e envolver acompanhamento multiprofissional. O uso dessas medicações precisa ser cauteloso, baseado em evidências científicas e indicado apenas quando realmente necessário.

Dra. Amouni Mohmoud Mourad

Acredito, ainda, que seja importante fortalecer ações educativas direcionadas aos profissionais de saúde, capazes de estimulá-los a desenvolver mecanismos que os auxiliem a esclarecer aos seus pacientes que o emagrecimento obtido exclusivamente com medicamentos pode criar a falsa impressão de um processo simples e rápido. Além dos possíveis efeitos adversos, existe ainda o risco significativo de recuperação do peso após a suspensão do tratamento. Resultados mais consistentes e duradouros tendem a ser alcançados quando o uso dessas terapias está associado a mudanças sustentáveis no estilo de vida, como a prática regular de atividade física e uma alimentação adequada, sempre com orientação de profissionais da área.

Autora

Amouni Mohmoud Mourad
http://lattes.cnpq.br/8501675642359450

 

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