
Luciane De Rossi
Formação: Mestra em Psicologia Clínica (Instituto de Psicologia da USP);
Especialista em Psicologia Hospitalar (InCor-FMUSP);
Especialista em Neuropsicologia (CEPSIC).
Atuação profissional: Diretora da Divisão de Psicologia do IC-HC-FMUSP;
Psicóloga do Instituto Central do HC-FMUSP.
Áreas de expertise: Psicologia Hospitalar;
Neuropsicologia;
Gestão em Saúde Mental;
Psicologia Clínica.
Nossos sinceros agradecimentos por compartilhar conosco sua valiosa experiência e visão transformadora da psicologia aplicada à saúde.
A
interdisciplinaridade representa, em essência, a articulação entre diferentes disciplinas ou campos de conhecimento para abordar um problema ou fenômeno complexo. No contexto da saúde, a interdisciplinaridade emerge como um imperativo ético e prático para a construção de um cuidado verdadeiramente integral e efetivo. Isso implica a colaboração ativa e a troca de conhecimentos, métodos e perspectivas entre profissionais de diversas áreas, como medicina, enfermagem, psicologia, serviço social, fisioterapia, terapia ocupacional, nutrição, farmácia, entre outras.
A equipe interdisciplinar é essencial para a atenção integral à saúde, que promove o cuidado centrado no doente, e não na doença. Além da premissa da integralidade, outras questões relacionadas aos conceitos de saúde, doença e ser humano legitimam a atuação de diferentes profissionais no contexto hospitalar. Esses conceitos destacam as diferentes dimensões a serem consideradas: o conceito de saúde como um estado de completo bem-estar físico, mental e social, de acordo com a Organização Mundial da Saúde; a compreensão da etiologia multifatorial do processo de adoecimento; e a compreensão do ser humano como um ser biopsicossocial e espiritual. Nenhum profissional é totalmente capacitado para cuidar, simultaneamente, de todas essas dimensões em profundidade. Por isso, a equipe é tão importante.
Entretanto, a interação entre os profissionais de uma mesma equipe pode ter níveis de complexidade diversos. A atuação de diferentes profissionais em um mesmo local de trabalho ou a oferta de cuidado ao mesmo paciente não garante a assistência interdisciplinar. O trabalho em equipe interdisciplinar é uma construção, pautada em conhecimentos teóricos, habilidades técnicas e, principalmente, competências comportamentais e relacionais. Atitude colaborativa, empatia, resiliência e comunicação efetiva são fundamentais para a integração entre distintos saberes e fazeres na busca de um propósito comum.
Conectar para cuidar
O atendimento em equipe interdisciplinar permite o cuidado integral e centrado nos pacientes e familiares, abordando diferentes fatores que interferem no processo de saúde e doença. Inicialmente, o olhar de profissionais diversos traz uma análise mais completa e contextualizada dos problemas de saúde, levando a diagnósticos mais precisos, planos terapêuticos mais abrangentes e, consequentemente, a melhores desfechos clínicos para os pacientes e suas famílias. Ao longo do processo de cuidado, possibilita o acompanhamento e a reavaliação constante da evolução do quadro clínico do paciente, com tomada de decisão compartilhada e mudanças ágeis nos planos terapêuticos.
Além disso, a interdisciplinaridade oferece oportunidades para que cada profissional aprimore a qualidade e efetividade do cuidado que oferece.
A troca de conhecimentos e perspectivas enriquece a compreensão dos problemas de saúde, permitindo a identificação de soluções mais inovadoras e criativas, e fortalece uma cultura colaborativa, respeitosa e enriquecedora.
– Fortalecendo Laços: a interdisciplinaridade como estratégia para o cuidado integral em saúde
Há ainda benefícios no que se refere à saúde e experiência dos profissionais de saúde. A divisão de responsabilidades e a complementaridade das expertises auxiliam de diversas maneiras: na definição do diagnóstico e plano terapêutico; na mediação da comunicação entre pacientes, familiares e equipe de saúde; na gestão e elaboração de conflitos; e no manejo do estresse ocupacional e redução de burnout.
A interdisciplinaridade contribui para a saúde e melhora a segurança e experiência de pacientes, familiares e profissionais de saúde. Representa ainda redução de complicações e de custos para a instituição, o que incentiva a necessidade da construção de equipes interdisciplinares nos hospitais e em outros dispositivos de saúde. Apesar de tantos benefícios, a implementação de um modelo de trabalho interdisciplinar pode enfrentar desafios complexos.
Conhecendo os nós: desafios para a atuação interdisciplinar
Os desafios relacionados à implementação de um modelo de atuação interdisciplinar têm relação com modelos unidisciplinares ou hierarquizados, com a cultura institucional e com a formação, personalidade e soft skills dos profissionais.
Historicamente, a cultura profissional foi marcada pela especialização e hierarquização. A hierarquia entre as profissões e a falta de reconhecimento equitativo das contribuições de cada área podem dificultar a construção de relações de parceria. Cada disciplina tende a operar “no seu quadrado”, com forte senso de identidade profissional, valorização da autonomia disciplinar, vocabulário técnico próprio, valores e técnicas especializadas. A linguagem própria, aliada à falta de espaços e tempo para diálogo e troca, pode dificultar a comunicação eficaz entre profissionais. O desafio começa ainda na formação dos profissionais de saúde, tradicionalmente unidisciplinar, que prioriza a especialização em detrimento de uma visão mais sistêmica e da capacidade de trabalhar em equipe, de maneira interdisciplinar. Há também a priorização da formação técnica em detrimento das habilidades relacionais, o que pode dificultar a comunicação. A falta de clareza sobre a atuação e as contribuições de outras áreas e a resistência a mudanças podem gerar conflitos e dificultar a colaboração e a construção de um trabalho verdadeiramente integrado.
Além disso, questões estruturais, como a organização dos serviços de saúde em modelos disciplinares estanques, a falta de incentivos para o trabalho interdisciplinar e a ausência de ferramentas e metodologias adequadas para a colaboração, representam barreiras importantes.
Desatando os nós e tecendo laços: estratégias para a implementação da interdisciplinaridade
Implementar a interdisciplinaridade é uma meta diária a ser perseguida, e exige mais do que boa vontade. Demanda mudanças estruturais, disposição para o diálogo e abertura ao novo. Por outro lado, há oportunidades claras: ambientes interdisciplinares tendem a gerar soluções mais criativas, aumentar a eficácia terapêutica e melhorar a experiência de pacientes, familiares e profissionais.
Para que a interdisciplinaridade se torne uma realidade efetiva e traga os benefícios esperados, é fundamental a adoção de estratégias que promovam a colaboração e a integração entre as diferentes disciplinas.
– Fortalecendo Laços: a interdisciplinaridade como estratégia para o cuidado integral em saúde
Começando pelo investimento na formação interdisciplinar: os currículos dos cursos de graduação e pós-graduação devem incluir conteúdos e metodologias que estimulem o trabalho em equipe, a compreensão das diferentes áreas do conhecimento e o desenvolvimento de habilidades de comunicação e atitude colaborativa.
Nos hospitais e centros de saúde, é importante que sejam criados espaços para a interação, que facilitem o encontro e a troca de informações. Exemplos de iniciativas que podem promover a integração são reuniões clínicas, visitas multiprofissionais, discussões de caso, grupos de estudo e projetos de pesquisa interdisciplinares. As visitas e reuniões contam com a contribuição de todos os profissionais para a discussão dos casos e elaboração de um plano de cuidado abrangente e compartilhado. As reuniões minimizam ruídos e falhas de comunicação, além de reduzir seus impactos no tratamento. Nesse fórum, é possível discutir questões difíceis, sobre as quais uma recomendação de consenso do grupo pode fortalecer a confiança do paciente, familiares e profissionais no plano terapêutico. É ainda um espaço privilegiado para compartilhar atualizações em pesquisas no campo da saúde.
Além disso, é possível contar com outras ferramentas e metodologias colaborativas, como prontuários eletrônicos integrados, plataformas de comunicação on-line, protocolos de cuidado interdisciplinares e instrumentos de avaliação compartilhados. A disponibilidade de novas tecnologias de comunicação, como teleconferência ou teleconsultoria, também oferece a possibilidade de trocas importantes.
Do ponto de vista institucional, é muito importante fomentar uma cultura de segurança psicológica, colaboração e respeito, que valorize o trabalho em equipe e a comunicação assertiva. Papéis, responsabilidades e fluxos de trabalho devem estar bem definidos. A liderança tem papel primordial na gestão das equipes interdisciplinares. As equipes possibilitam uma boa governança clínica, otimizando o trabalho em pilares fundamentais: eficiência clínica, experiência do paciente e gestão de riscos. A liderança deve incentivar a colaboração, reconhecer as contribuições de cada profissional e promover um ambiente seguro. O monitoramento contínuo do funcionamento das equipes e o exercício de feedback também são ferramentas importantes para a melhoria constante do trabalho em equipe.
A interdisciplinaridade na saúde é uma necessidade premente para enfrentar a complexidade dos desafios contemporâneos e para promover um cuidado verdadeiramente integral e centrado no paciente. Ao adotar estratégias que fomentem a colaboração, a comunicação e a integração entre os diferentes saberes, fortalecemos os laços entre profissionais de saúde em prol de um cuidado mais integrado e eficaz. Mais do que promover encontros, é preciso sustentar vínculos. A interdisciplinaridade não é um evento pontual, mas uma escolha cotidiana, que implica escuta, empatia e corresponsabilidade.
Autora
Luciane De Rossi
lattes.cnpq.br/1100073526712289







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