Grupo focal como estratégia de combate ao racismo no ensino superior: a experiência do Núcleo de Direitos Humanos e Saúde Mental do Centro Universitário São Camilo

Grupo focal como estratégia de combate ao racismo no ensino superior: a experiência do Núcleo de Direitos Humanos e Saúde Mental do Centro Universitário São Camilo

Imagem de capa: conteúdo gerado por Inteligência Artificial (IA).

racismo estrutural permanece como um desafio significativo, profundamente enraizado nas instituições brasileiras, inclusive no ensino superior. Apesar de avanços importantes proporcionados por políticas afirmativas, o ambiente universitário ainda é marcado por desigualdades históricas e estruturais.

Nesse sentido, o percentual de professores negros no ambiente universitário brasileiro ainda é muito baixo: apenas 21% dos docentes do ensino superior se autodeclaram pretos (2,9%) ou pardos (18,1%)1, segundo dados do Censo da Educação Superior de 20232.

Isso significa que a expansão da presença de estudantes pretos e pardos no ensino superior, que representam cerca de 48% das vagas, ainda não se refletiu de forma significativa no corpo docente, indicando que a falta de representatividade afeta o senso de pertencimento dos alunos negros, limita a diversidade acadêmica e permite a perpetuação de práticas discriminatórias estruturais.

Esse cenário demanda das instituições educacionais não apenas o reconhecimento formal da diversidade, como também ações práticas e metodologicamente embasadas que sejam capazes de enfrentar e transformar essa realidade.

Diante disso, o Núcleo de Direitos Humanos e Saúde Mental (NDHSM) do Centro Universitário São Camilo idealizou a realização de grupos focais como ferramenta estratégica para combater o racismo institucionalizado e promover um ambiente acadêmico inclusivo e saudável.

O objetivo deste texto é apresentar conceitualmente a proposta metodológica planejada pelo Núcleo de Direitos Humanos e Saúde Mental (NDHSM), destacando como os grupos focais podem contribuir para uma reflexão crítica e coletiva sobre o racismo e seus impactos, especialmente relacionados à saúde mental da comunidade acadêmica negra.

O Núcleo de Direitos Humanos e Saúde Mental do Centro Universitário São Camilo

O Núcleo de Direitos Humanos e Saúde Mental (NDHSM) foi criado em 2020 com o objetivo de fomentar, no âmbito do Centro Universitário São Camilo, uma cultura institucional pautada na defesa dos direitos humanos, na valorização da diversidade e na promoção do bem-estar psicológico.

Entre seus principais objetivos estão a formação da comunidade camiliana em pautas estratégicas de direitos humanos e o desenvolvimento de ações transversais com foco na saúde mental, equidade e justiça social.

Nesse sentido, desde sua criação, o núcleo tem realizado campanhas de sensibilização, grupos de estudos, eventos acadêmicos e iniciativas voltadas à escuta e ao acolhimento de estudantes, docentes e demais membros da comunidade universitária.

– Grupo focal como estratégia de combate ao racismo no ensino superior: a experiência do Núcleo de Direitos Humanos e Saúde Mental
do Centro Universitário São Camilo

Entre os projetos já realizados, destacam-se o “Não Se Cale”, voltado ao enfrentamento da violência de gênero em parceria com a Extensão Universitária, e o “Felicidade na Academia”, que investigou a saúde mental discente a partir de uma abordagem interdisciplinar sobre felicidade e bem-estar no ambiente universitário.

No ano de 2024, o NDHSM focou em três grandes frentes de atuação. A primeira foi o “Projeto de Letramento Antirracista”, que busca promover a conscientização e o enfrentamento ao racismo estrutural por meio de formações, debates e espaços de escuta qualificada entre estudantes e docentes negros e negras, além da organização de eventos acadêmicos voltados à temática dos direitos antidiscriminatórios. A segunda frente foi o “Projeto Saúde Mental Comunitária”, voltado à promoção do bem-estar da comunidade acadêmica, com a implantação de salas de descompressão, a formação de estudantes escutadores voluntários e a produção de conhecimento sobre saúde mental no ensino superior. Por fim, a terceira frente foi o “Projeto da Cartilha dos Direitos do Paciente LGBTQIAPN+”, que visa elaborar um material educativo voltado à formação ética e inclusiva de profissionais da saúde, com foco no acolhimento, no respeito à diversidade e na garantia de direitos dessa população no contexto do cuidado.

Entre essas ações, destaca-se o subprojeto “Grupo Focal Antirracista”, cuja experiência será abordada a seguir e que consiste em um espaço de escuta, pertencimento e construção coletiva de estratégias institucionais de inclusão no ambiente universitário.

O grupo focal como método qualitativo

O Grupo Focal (GF) é uma técnica de investigação qualitativa que reúne um pequeno grupo de pessoas para discutir um tema específico, permitindo a coleta de opiniões e percepções. A partir da interação entre os membros do grupo, há a compreensão e o aprofundamento sobre uma determinada temática.

Por favorecer a liberdade de expressão, principalmente ofertando o acolhimento frente à possibilidade de externar sentimentos, expectativas, impressões e opiniões, o grupo focal se torna um espaço que promove interlocução e reflexões em torno de alguns tópicos, que são destacados a partir do tema central.

À frente do grupo encontra-se o moderador, incumbido de promover um ambiente seguro e respeitoso, garantindo que todos os participantes se sintam à vontade para compartilhar opiniões, experiências pessoais, perspectivas e percepções.

Dentro desse contexto, torna-se necessário criar um conjunto de regras claras desde o início para ajudar a criar um espaço colaborativo e seguro, em que todos os participantes sejam incentivados a participar. A interação é essencial para o aprofundamento das discussões, possibilitando a revelação de novos aspectos e novos olhares relacionados aos temas em questão.

É fundamental identificar quem deve participar. Para isso, deve-se escolher indivíduos com vivências ou perspectivas relacionadas à temática para garantir representatividade e diversidade. É necessário informar o participante, previamente, sobre os aspectos do formato e da confidencialidade da discussão.

Esse método de manejo da experiência grupal é uma ferramenta poderosa, especialmente para explorar temas complexos, como o combate ao racismo no ensino superior.

A proposta metodológica do grupo focal antirracista do NDHSM

Instituído para promover a reflexão coletiva entre estudantes e professores negros da instituição, o grupo focal antirracista idealizado pelo NDHSM busca estimular a empatia, compartilhar vivências e aprofundar o debate sobre questões raciais. Em consonância com a Lei nº 10.639/03, essa abordagem fortalece as discussões e incentiva um entendimento mais amplo acerca das dinâmicas e ações institucionais de enfrentamento do racismo.

Iniciado em 2024, o grupo é constituído por alunos e professores negros, que inicialmente foram convidados a participar e, em seguida, encorajados a convidar seus pares. Convém destacar que todos os integrantes são de ascendência afro, abrangendo professores de diferentes cursos, com variados tempos de instituição, e alunos de diversas áreas acadêmicas e contextos socioeconômicos.

Os encontros do grupo ocorrem mensalmente, predominantemente de forma presencial, mas com a opção de formato híbrido quando necessário.

O ambiente acolhedor, franco e corajoso tem estimulado os participantes a expressar suas opiniões e a relatar experiências pessoais relacionadas à dor e ao sofrimento provocados pelo racismo dentro e fora do ambiente acadêmico.

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A partir dessa catarse coletiva, o grupo se fortaleceu, se uniu e discutiu estratégias de enfrentamento das estruturas sociais discriminatórias que permeiam o ensino superior. O empoderamento do grupo fez com que propostas de ações fossem discutidas, tais como a criação de espaços de representatividade, exploração do potencial vocal dos docentes, e a promoção de debates sobre a violência simbólica contra pessoas negras na formação e nas atividades acadêmicas.

Ações institucionais antirracistas realizadas a partir e pelo grupo focal

No decorrer dos encontros realizados no ano de 2024, o Grupo Focal Antirracista ganhou autoridade ao envolver-se em diversas ações institucionais de combate ao racismo estrutural. No primeiro encontro foram utilizadas fotos de alunos, professores e funcionários, feitas pelo Marketing da faculdade, para demonstrar a diversidade de tons de pele dos camilianos.

Houve a participação massiva dos componentes do grupo em eventos institucionais, como o desenvolvido pela disciplina de Multiculturalismo, denominado “Letramento Antirracista”, bem como o organizado pelo NDHSM, no mês da Consciência Negra, o II Congresso de Direitos Antidiscriminatórios. A presença do grupo nesses eventos foi marcada especialmente por uma apresentação musical, aclamada pelos presentes.

Entre as iniciativas desenvolvidas a partir e pelo grupo focal, destaca-se ainda uma ação de marketing para o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra. O grupo reuniu fotos de seus integrantes e frases marcantes, que afirmavam: “Sim, nós reexistimos!”. Essa campanha teve como mote a postagem nas redes sociais institucionais de que professores negros existem, estão e fazem parte do corpo docente do Centro Universitário São Camilo.

Simultaneamente, a pedido do próprio grupo, organizou-se um levantamento de autores negros e obras sobre africanidades disponíveis na biblioteca da instituição de ensino. Em seguida, ampliou-se o convite para a participação no grupo, englobando alunos do “Coletivo Aquilombar” e, de forma mais abrangente, estudantes negros matriculados nos diferentes cursos de graduação.

No último encontro de 2024, o grupo voltou-se para a própria ancestralidade, levantando a questão “conhecemos a história da África?” e provocando reflexões sobre a ligação com as mais de 4 milhões de pessoas sequestradas do continente africano e trazidas para o Brasil como escravizadas. A discussão evidenciou o quanto realmente conhecemos sobre a língua e a história de nossos antepassados, destacando a necessidade de partir do presente para investigar as próprias origens e, finalmente, chegar ao passado. Esse percurso reforça a relevância de reconhecer e valorizar a herança africana que compõe nossa identidade.

Para o ano de 2025, foram definidas ações que incluem a organização de leituras e estudos sobre a África e autores negros, a elaboração de árvores genealógicas dos participantes e a conexão desses dados à ancestralidade africana por meio da arte, da língua, da cultura e dos movimentos históricos que trouxeram a população afro para o Brasil. O objetivo é, assim, aprofundar o entendimento sobre a própria herança cultural, reforçando a necessidade de conhecer quem somos para levar nossa história adiante.

Considerações finais

As iniciativas do Grupo Focal Antirracista, que vão desde a participação em eventos acadêmicos até a campanha de marketing que reafirma a presença negra na instituição e o mapeamento de autores negros na biblioteca, evidenciam seu potencial para fomentar debates e ações contra o racismo de maneira concreta. Ao ultrapassarem a esfera teórica, essas atividades refletem um compromisso institucional efetivo com a inclusão e a transformação social.

A oportunidade de se expressar, ser escutado e construir, coletivamente, uma visão acadêmica antirracista tem sido outro ganho desse grupo. Ao reunir professores de diversas áreas e alunos de diferentes contextos socioeconômicos, esse espaço vem consolidando laços de solidariedade e legitimidade institucional, transformando reflexões abstratas em ações práticas.

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do Centro Universitário São Camilo

A dinâmica de encontros mensais e a constante abertura a novos participantes demonstram a busca contínua por uma rede de acolhimento e empatia, em que a história e a vivência da população negra são respeitadas e enaltecidas.

Cada iniciativa desenvolvida até agora – seja nas redes sociais, em eventos acadêmicos, por meio de campanhas de reafirmação da presença negra ou no aprofundamento bibliográfico sobre africanidades – reforça o papel estratégico dos grupos focais no enfrentamento ao racismo no contexto acadêmico.

Além de promover uma reflexão coletiva essencial para a saúde mental da comunidade acadêmica negra, essas ações estimulam a construção de um ambiente universitário verdadeiramente inclusivo. Em suma, essa experiência demonstra como a prática do grupo focal antirracista pode mobilizar a instituição em torno de uma causa fundamental: a luta contra o racismo em todas as suas expressões.

Referências
  1. BRASIL DE FATO. Consciência Negra: magistério superior conta com apenas 2,9% de professores autodeclarados pretos. 18 nov. 2024. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2024/11/18/consciencia-negra-magisteriosuperior-conta-com-apenas-2-9-de-professores-autodeclarados-pretos/. Acesso em: 1º abr. 2025. ↩︎
  2. BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira – INEP. Censo da Educação Superior: resultados. 2025. Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/areas-de-atuacao/pesquisas-estatisticas-e-indicadores/censo-da-educacao-superior/resultados. Acesso em: 1º abr. 2025. ↩︎

CARINE, Bárbara. Como ser um educador antirracista. São Paulo: Planeta do Brasil, 2023. 160 p.
GATTI, B. A. Grupo focal na pesquisa em Ciências Sociais e Humanas. 2ª ed. São Paulo: Autores Associados, 2012.80 p.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Desigualdades sociais por cor ou raça no Brasil. Estudos e pesquisas: informação demográfica e socioeconômica. Brasília, n. 41, 2019. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101681_informativo.pdf. Acesso em: 1º abr. 2025.
MEIRA, Marcel R. M. M (org.). Multiculturalismo: diversidade e direitos humanos na contemporaneidade. São Paulo: Matrioska Editora, 2023. 185 p.
MOKHTAR, Gamal (ed.). África antiga. 2ª ed. rev. Brasília/DF: Unesco, 2010. 943 p. (História Geral da África).
RIBEIRO, Djamila. Pequeno manual antirracista. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. 135 p.

Autoras

Sonia Maria Soares Rodrigues Pereira
lattes.cnpq.br/1295937465880669

Edna Silva Costa
lattes.cnpq.br/2691700806652686

Lydiane Regina Fabretti Streapco
lattes.cnpq.br/0089223927505343

Marina de Neiva Borba
lattes.cnpq.br/1321321041290494

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