A
pesquisa científica interdisciplinar é um estudo em que o pesquisador, ou o grupo de pesquisa, explora duas ou mais disciplinas acadêmicas distintas em seu projeto. Nesse caso, aborda-se o objeto de pesquisa sobre vários pontos de vista, a partir de diferentes metodologias, o que, em geral, traz uma visão mais aprofundada sobre o tema.
A pesquisa científica se dá do mesmo modo que a interdisciplinaridade se apresenta como algo fundamental no ensino – para que o aluno consiga estabelecer relações de forma mais natural e orgânica, tornando seu aprendizado mais significativo e integrado. Os desafios atuais da sociedade, que a ciência e a pesquisa podem ajudar a superar, são extremamente complexos e não podem ser resolvidos dentro dos limites de uma única disciplina.
No passado, na Antiguidade, o saber era unificado. Na Grécia Antiga, os filósofos tentavam compreender o mundo a partir de múltiplas perspectivas. Aristóteles, por exemplo, estudava o que hoje chamamos de biologia, física, lógica, política, ética, poesia, retórica, metafísica, astronomia, entre outras áreas. Na Idade Média, porém, dentro das universidades medievais, houve a separação do conhecimento em disciplinas, as Artes Liberais Clássicas, a saber: o Trivium (gramática, lógica e retórica) e Quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e música).
Mais tarde, com Francis Bacon, considerado o fundador do empirismo, o método científico ganhou terreno e fundamentou as bases da ciência moderna. Com isso, a especialização disciplinar passou a ser natural entre os cientistas. O retorno ao conhecimento integrado e, por consequência, interdisciplinar, iniciou-se na Europa, no fim dos anos 1960, devido ao conflito entre o que se aprendia nas universidades e o que o mercado de trabalho exigia. Os alunos não saíam preparados para a “vida real”. Assim, iniciativas para a transdisciplinaridade foram propostas, como a pioneira “Carta da Transdisciplinaridade”, de Lima de Freitas, Edgar Morin e Basarab Nicolescu, em 1994.
Alguns projetos interdisciplinares de grande impacto e de altíssimo investimento financeiro e de recursos humanos, ficaram mundialmente famosos, como o Projeto Manhattan (1942-1945) e o Projeto Genoma Humano (1990-2003). O primeiro foi um dos empreendimentos científicos mais ambiciosos do século XX, recentemente retratado nos cinemas por Christopher Nolan no filme “Oppenheimer”, que resultou no desenvolvimento das primeiras armas nucleares. Disciplinas como física nuclear, química, engenharia, matemática, ciência da computação, geologia, biologia e medicina foram reunidas para o desenvolvimento do projeto, com a participação de cientistas de destaque, como J. Robert Oppenheimer, Enrico Fermi e Richard Feynman. O projeto influenciou a geopolítica do fim da Segunda Guerra Mundial.
O segundo, o Projeto Genoma Humano, liderado pelo Dr. Francis Collins, revolucionou a biologia e a medicina ao sequenciar todo o DNA humano pela primeira vez. Foi um consórcio de mais de 20 grupos de pesquisa de diversos países, incluindo especialistas em biologia molecular, genética, bioinformática, estatística, computação e química. Esse projeto abriu portas para a melhor compreensão de doenças hereditárias, novas terapias genéticas e para a personalização da medicina, que está em curso atualmente.
Como observado, a pesquisa interdisciplinar é realizada com a união de esforços de diferentes pesquisadores, com distintas formações acadêmicas e experiências. A pesquisa científica, da maneira como está estabelecida na atualidade, exige que o cientista se especialize cada vez mais. Os cursos de pós-graduação stricto sensu são exemplos disso.
Para se conhecer profundamente um assunto, é necessário reduzir o espectro de temas a serem estudados. Assim, sabe-se muito de tão pouco. Essa foi a forma que se encontrou para viabilizar o necessário aprofundamento do conhecimento, uma vez que, com o avanço da ciência, há um acúmulo assombroso de informação e uma evidente limitação do ser humano em absorvê-la por completo.
– Pesquisa interdisciplinar: uma necessidade
Se a inteligência artificial poderá alterar essa condição é algo a ser observado ao longo dos próximos anos. De todo modo, a interdisciplinaridade na pesquisa científica é um caminho obrigatório a se percorrer.
A interdisciplinaridade em pesquisa no Centro Universitário São Camilo
Talvez o case de mais sucesso no que diz respeito à interdisciplinaridade no Centro Universitário São Camilo seja a Clínica-Escola Promove. Além de se tratar de um ambiente colaborativo entre os diferentes cursos de graduação da instituição, há o Laboratório de Pesquisa do Exercício e Qualidade de Vida, no qual docentes e alunos de diversos cursos, como Medicina, Nutrição, Fisioterapia e Biomedicina, desenvolvem seus estudos.
O exemplo mais recente vem de um estudo recém-publicado na prestigiada revista British Journal of Sports Medicine, em que foram avaliados três grupos de atletas de voleibol (mulheres transgênero, mulheres cisgênero e homens cisgênero)1. Nesse trabalho, foram analisados dados de níveis hormonais, capacidade de força, capacidade cardiorrespiratória, composição corporal, status de sono, status nutricional, entre outros parâmetros. Um esforço que envolveu alunos e professores dos cursos de Medicina, Nutrição e Fisioterapia. Essa abordagem traz uma visão mais completa e inédita da condição de atletas mulheres transgênero do voleibol, o que foi possível porque o grupo de pesquisa era composto por profissionais de diferentes áreas, com diferentes expertises. Os participantes da pesquisa foram estudados por diversos ângulos que, em conjunto, permitiram chegar às conclusões estabelecidas no estudo.
Um outro exemplo de destaque está no grupo de pesquisa que estuda o efeito da restrição de sono na homeostase. O grupo conta com profissionais especializados em imunologia, psicobiologia, reprodução humana e biologia molecular. Os projetos utilizam modelos animais e já foi possível observar que a restrição de sono induz falha na atividade de células que são importantes para a resposta imune contra tumores2 e que, além disso, interfere na ativação e diferenciação dos linfócitos B-1 contra infecções3. Estão em curso projetos que objetivam entender o efeito da restrição de sono na espermatogênese e no desenvolvimento tumoral. Novamente, o entendimento de um tema de tamanha complexidade é possível apenas se houver a união de esforços e conhecimentos de diferentes pesquisadores, pois, como citado anteriormente, a especialização que a pesquisa científica exige inibe, de certa forma, a existência de polímatas que sejam competentes em tantas áreas diferentes.
Outra iniciativa importante, por exemplo, envolve a temática do envelhecimento em seus diferentes aspectos, conduzida por docentes do curso de Medicina, além de outros projetos conduzidos por docentes do mestrado profissional em Nutrição – Do nascimento à adolescência. O Centro Universitário São Camilo, reconhecendo a importância de pesquisas dessa natureza, tem fomentado e incentivado iniciativas como as citadas, como a nucleação de grupos de pesquisa interdisciplinares, pois entende que esse é o caminho que a ciência deve seguir para resultados profícuos.
Desafios da pesquisa interdisciplinar
No entanto, obviamente, existem desafios para a implementação e condução de projetos interdisciplinares. Entre eles, destacam-se: (1) métodos de pesquisa divergentes; (2) comunicação e interesse; e (3) desafios institucionais e de financiamento.
A diversidade de metodologia é um diferencial, mas pode também ser um desafio para pesquisas interdisciplinares. É preciso que os pesquisadores envolvidos sejam capazes de integrar bem os resultados que são extraídos a partir desses diferentes métodos.
– Pesquisa interdisciplinar: uma necessidade
Os quantitativos são utilizados para analisar dados e testar hipóteses, enquanto os qualitativos são úteis para a compreensão dos contextos.
Além disso, há o desafio da comunicação e interesse de cada participante do projeto. Questões sobre autoria, revista onde o estudo será publicado, direito sobre patentes, entre outras, são relevantes e podem desestabilizar o grupo de pesquisa. A comunicação e acordos assertivos e eficientes, antes e ao longo do processo, são essenciais para o sucesso de projetos interdisciplinares.
Há ainda desafios institucionais e de financiamento. Em geral, pesquisas interdisciplinares são maiores e, consequentemente, requerem maior investimento financeiro. A participação de cada instituição no financiamento é um tema que deve ser discutido durante a fase do estabelecimento da parceria. Existem agências de fomento à pesquisa que investem em projetos dessa natureza, como a Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), uma empresa pública vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) com seus Programa de Pesquisa em Bioenergia (BIOEN) e o Programa de Pesquisa em Mudanças Climáticas Globais. Esses são alguns exemplos de fontes de possíveis financiamentos para tais projetos.
Mesmo diante dos desafios, o interesse em fazer pesquisa relevante, que possa ser útil para a sociedade, deve ser maior do que todos os obstáculos. É preciso que exista uma união de esforços entre pesquisadores e instituições para que os objetivos sejam alcançados. Este é o papel da ciência!
Referências
- ALVARES, L. A. et al., 2025. Body composition, exercise-related performance parameters and associated health factors of transgender women, cisgender women and cisgender men volleyball players. British Journal of Sports Medicine. bjsports-2024-10860. doi: 10.1136/bjsports-2024-108601 ↩︎
- DE LORENZO, B. H. P. et al., 2018. Chronic Sleep Restriction Impairs the Antitumor Immune Response in Mice. Neuroimmunomodulation 25(2):59-67. doi: 10.1159/000490352. ↩︎
- VIDAL, A. S. et al., 2022. Impact of sleep restriction in B-1 cells activation and differentiation. Immunobiology 227(6):152280. doi: 10.1016/j.imbio.2022.152280. ↩︎
Autor
Fábio Mitsuo Lima
lattes.cnpq.br/2949452791604297







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