Integração universidade-comunidade: práticas transformadoras

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Imagem de capa: conteúdo gerado por Inteligência Artificial (IA).

educação é um direito de todos e visa o desenvolvimento da pessoa e seu preparo para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho. Segundo a Constituição de 1988, as universidades devem obedecer ao princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, promovendo a formação de indivíduos conscientes, instruídos e capacitados para contribuir efetivamente para o desenvolvimento da sociedade.

Ao longo do tempo, a extensão universitária tornou-se parte importante na formação dos indivíduos, e a comunidade passou a ser o sujeito das ações extensionistas, articulando-se com o ensino e a pesquisa, possibilitando maior aproximação com a realidade da população brasileira e priorizando práticas voltadas para o atendimento de necessidades sociais.

Nesse contexto, ao dialogar com a sociedade, a universidade se coloca como parte ativa e positiva no processo de mudança e expõe tanto docentes como discentes às práticas acadêmicas inter, multi e transdisciplinares, transformando, além da universidade, os setores sociais com os quais ela interage.

– Integração universidade-comunidade: práticas transformadoras

Como parte do cumprimento dessa missão e considerando as diretrizes para as ações de extensão universitária, a disciplina “Integração Saúde e Comunidade” (ISC), que compõe o currículo do curso de Medicina da Universidade São Camilo, insere-se no contexto do Sistema Único de Saúde (SUS), fazendo das Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e de outros equipamentos da Rede de Atenção à Saúde (RAS) seu espaço de sala de aula. Isso possibilita ao discente a interação dialógica com múltiplos atores, como profissionais da saúde, gestores locais (saúde, educação, assistência social e cultura) e a população, permitindo a aproximação com outras realidades de produção de vida, nas quais se apreende e se (re)constrói o processo histórico social em suas múltiplas determinações e facetas.

Nessa importante trajetória acadêmica, a “comunidade” passa a fazer parte do eixo pedagógico “professor-aluno” e possibilita a articulação e aproximação aos valores e princípios que orientam a comunidade, dando clareza aos problemas sociais aos quais se pretende atuar.

Panfleto produzido pelos alunos para conversar sobre saúde mental com os idosos.

Desse modo, quando focamos no objetivo do ensino, as ações extensionistas se configuram como importante possibilidade de diversos tipos de aprendizagem, pois têm o potencial de ampliar o olhar do discente em alguns aspectos, como:

  • Realizar leituras mais contextualizadas nas experiências sociais, principalmente em se tratando de grupos mais vulneráveis, como pessoas em situação de rua, população negra, idosos, pessoas em condições precárias de moradia e trabalho, mulheres, entre outros;
  • Escutar, acolher e pesquisar para compreender e dar respostas às demandas de atenção à saúde, mesmo que pontuais por se tratar de ações universitárias;
  • Promover e articular diálogo entre saberes interdisciplinares, equipes multiprofissionais e ações inter e intrasetoriais;
  • Ampliar a ideia do cuidado em saúde para além da medicalização;
  • Compreender as singularidades dos indivíduos e grupos;
  • Sensibilizar o estudante para o enfrentamento dos problemas do território, como violência, gravidez na adolescência, lixo urbano, falta de acessibilidade, entre outras vulnerabilidades sociais.

No contexto do SUS, os projetos de extensão desenvolvidos pelos estudantes de Medicina da Universidade São Camilo se apoiam no princípio da integralidade do cuidado, fortalecendo-o, uma vez que são desenvolvidos a partir da observação e leitura da realidade, identificando os aspectos mais relevantes do problema observado e implementando ações práticas como contribuições, mesmo que pontuais, para a solução dos problemas.

De modo complementar, a humanização em saúde, acrescida neste ano de 2025 como um dos princípios do SUS, propõe relações de acolhimento, respeito e escuta qualificada entre profissionais e usuários. Os projetos de extensão universitária, ao aproximarem a academia da realidade social, favorecem a construção de vínculos e a valorização da singularidade de cada sujeito. Os estudantes são desafiados a olhar além do diagnóstico, aprendendo a lidar com histórias de vida, desigualdades sociais e contextos de vulnerabilidade. Esse exercício fortalece a empatia, o compromisso ético e a prática de um cuidado centrado na pessoa.

A disciplina “Integração Saúde e Comunidade”, do curso de Medicina do Centro Universitário São Camilo, tem o objetivo de levar o estudante a compreender os determinantes sociais do processo saúde-doença, os princípios e diretrizes do SUS e a desenvolver competências para atuação multiprofissional e interdisciplinar em ações de promoção, prevenção, tratamento e reabilitação, contribuindo para a formação de profissionais críticos, éticos e comprometidos com a integralidade e a humanização do cuidado em saúde. Os alunos são expostos a aulas teóricas, simulação e idas às UBSs e equipamentos da RAS.

A partir do segundo semestre de 2022, a disciplina começou a promover mais sistematicamente as atividades extensionistas, que, desde então, vêm crescendo progressivamente. Durante esses três anos, as ações permearam diversos temas e foram destinadas a diferentes perfis populacionais, entre crianças, gestantes, mulheres, homens, idosos e até mesmo proposta para os profissionais de saúde. Os locais de execução incluíram escolas, organizações do terceiro setor, igrejas, praças públicas e as próprias UBSs.

Gráfico 1. Ações extensionistas realizadas pela disciplina ISC do curso de Medicina.

Obs.: A redução do número de atividades de 2024.2 para 2025.1 se deve ao fato de as turmas dos 7º e 8º semestres serem maiores do que as demais.
Tema: Conscientização sobre a Sífilis e disponibilização de teste rápido. Local: Praça próximo à UBS.

Principais temas abordados pelos estudantes:

  • Estilo de vida/autocuidado (alimentação, práticas de atividade física);
  • Doenças crônicas não transmissíveis;
  • Assuntos que englobam a pessoa idosa (idadismo, quedas, saúde mental, dor crônica);
  • Infecções Sexualmente Transmissíveis;
  • Vacinação;
  • Dengue;
  • Saúde mental;
  • Bullying nas escolas.

Os desafios também existem, pois a implementação dessas ações requer articulação entre universidade e gestão local, recursos financeiros e espaços físicos adequados nas UBSs. Além disso, o número reduzido de visitas presenciais compromete o contato direto com as equipes de saúde da família e os usuários dos serviços, dificultando a formação de vínculos necessários para o desenvolvimento das ações.

Porém, mesmo diante desses desafios, as ações extensionistas revelam-se como um potencial transformador significativo, contribuindo para articular teoria e prática e para o amadurecimento dos nossos futuros profissionais de saúde.

Tema: A importância do uso correto de medicações contínuas. Local: Centro Cultural localizado próximo à UBS.
Tema: Prevenção de quedas em idosos. Local: Igreja próximo à UBS.

Referências

ANDRADE, Beatriz Eleuza Silveira de et al. Extensão universitária e diretrizes curriculares nacionais: experiência para formação do futuro médico. In: IV Congresso Brasileiro de Ensino, Pesquisa e Extensão, 2025. Editora Integrar, 2025. Disponível em: https://ime.events/iv-ensipex/anais/trabalho/57916/extensao-universitaria-e-diretrizes-curriculares-nacionais-experiencia-para-formacao-do-futuro-medico. Acesso em: 20 set. 2025.

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil: texto constitucional promulgado em 5 de outubro de 1988, compilado até a Emenda Constitucional nº 135/2024. Brasília, DF: Senado Federal, Coordenação de Edições Técnicas, 2025. 488 p. Disponível em: https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/685819/CF88_EC135_2025.pdf. Acesso em: 20 set. 2025.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Política Nacional de Atenção Básica. Brasília: Ministério da Saúde, 2017.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Núcleo Técnico da Política Nacional de Humanização. HumanizaSUS: documento base para gestores e trabalhadores do SUS. 4ª ed., 4ª reimp. Brasília: Editora do Ministério da Saúde, 2010. 72 p. (Série B. Textos Básicos de Saúde).

FORPROEX — FÓRUM DE PRÓ-REITORES DAS INSTITUIÇÕES PÚBLICAS DE EDUCAÇÃO SUPERIOR BRASILEIRAS. Política Nacional de Extensão Universitária. Manaus, mai. 2012. Disponível em: https://proex.ufsc.br/files/2016/04/Pol%C3%ADtica-Nacional-de-Extens%C3%A3o-Universit%C3%A1ria-e-book.pdf. Acesso em: 20 set. 2025.

Autores

Karen Gonzaga Walter Rodrigues
lattes.cnpq.br/2951487378299806

Luciane Vasconcelos Barreto de Carvalho
lattes.cnpq.br/5200742181420804

Beatriz Eleuza Silveira de Andrade
lattes.cnpq.br/3612329100797345

Maria Elisa Gonzalez Manso
lattes.cnpq.br/3010843907901913

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