A importância das IES junto às populações vulneráveis

Ilustração: "A importância das IES junto às populações vulneráveis"

Imagem de capa: conteúdo gerado por Inteligência Artificial (IA).

uito se discute sobre o papel social das Instituições de Ensino Superior (IES), assunto que, nos últimos anos, tem ganhado destaque, especialmente no que diz respeito à contribuição para o desenvolvimento comunitário e à promoção da inclusão social. Toda IES produz impacto social, algo que ocorre desde a criação da primeira universidade, já que o conhecimento produzido levou, e ainda leva, a mudanças nas sociedades. Ressalta-se, no entanto, que nem sempre houve preocupação dessas instituições com o aspecto social.

Santos (2005) ressalta que a universidade é um território que demarca suas fronteiras, racionalizando aspectos socioeconômicos e políticos em normas por ela estabelecidas. Permeada por funções e hierarquias, permaneceu enclausurada por décadas, e hoje tem o desafio, imposto pela sociedade, de exercer seu papel social. Esse desafio, nas palavras de Morin (2012, sinopse), tem o “mérito de introduzir uma nova e criativa reflexão no contexto das discussões que estão sendo feitas sobre a educação para o Século XXI”.

Assim, as IES são chamadas a se reconstruírem para fora de seus muros, incorporando saberes de outros grupos sociais.

Seu papel não é apenas o de doar saber, mas passa a ser o de receber e compartilhar saber — papel que mobiliza afetos e perspectivas tanto de educadores e educandos quanto da própria comunidade.

– A importância das IES junto às populações vulneráveis

Nessa situação, “ninguém educa ninguém e ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo” (Freire, 1996, p. 68).

No Brasil, após a aprovação do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (SINAES), instituído pela Lei nº 10.861, de 14 de abril de 2004 (Brasil, 2004), as discussões sobre a responsabilidade social das IES ganharam destaque. Esses debates saíram fortalecidos quando da ocorrência da Conferência Mundial sobre Ensino Superior, em 2009, organizada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), cujo documento “As novas dinâmicas do ensino superior e pesquisas para a mudança e o desenvolvimento social” (UNESCO, 2009) passou a nortear a atuação dos Estados-membros da Organização das Nações Unidas (ONU). Mais do que formar profissionais qualificados, as IES são chamadas à responsabilidade de atuar como agentes de transformação, promovendo ações que busquem reduzir desigualdades, ampliar oportunidades e fortalecer o vínculo social.

No Brasil, país de inúmeras desigualdades, essa é uma função das IES que ganha extrema relevância e pode ocorrer de inúmeras formas, sendo as principais atividades as de extensão e a pesquisa aplicada. Esses dois tipos de ações trazem consigo a possibilidade de diminuição de barreiras sociais e da promoção de inclusão, sobretudo em contextos de desigualdades e vulnerabilidade.

Mas, primeiro, é importante compreender o que se entende por desigualdade e vulnerabilidade.

A desigualdade trata da distribuição diferente de recursos, oportunidades e direitos pelos diversos estratos sociais que compõem uma sociedade, resultando em níveis elevados de pobreza, exclusão e discrepância de acesso a serviços básicos, tais como saneamento e serviços sociais, para alguns grupos em detrimento do privilegiamento de outros.

Segundo dados do Banco Mundial (2020), o Brasil apresenta uma das maiores desigualdades de renda do mundo, com o 1% mais rico da população concentrando uma parcela significativa dos recursos nacionais, enquanto uma parcela expressiva da população vive em condições de vulnerabilidade socioeconômica. A desigualdade também se manifesta de forma regional, sendo mais acentuada nas regiões Norte e Nordeste, caracterizadas por menor desenvolvimento econômico e maior déficit de infraestrutura e serviços públicos de qualidade.

Por sua vez, a vulnerabilidade social diz respeito à desvantagem de grupos sociais diante de fatores econômicos, ambientais, culturais ou políticos que ameaçam sua sobrevivência e bem estar. Grupos como povos indígenas, comunidades quilombolas, populações em situação de rua, minorias raciais e indivíduos com deficiência encontram-se frequentemente em situações de maior risco de exclusão, discriminação e desigualdade de oportunidades. Segundo levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA, 2019), esses grupos enfrentam obstáculos no país que dificultam o acesso à educação de qualidade, saúde, moradia digna e ao mercado de trabalho formal.

Dessa forma, as ações das IES que envolvem extensão e pesquisa aplicada devem se voltar, prioritariamente, para esses grupos sociais desiguais e vulneráveis, considerando as interseccionalidades. Esse papel está ancorado no compromisso com os setores socialmente excluídos e na ética da convicção, que é calcada em valores e na dignidade humana.

Entretanto, a função social das IES não deve ser paternalizante, já que esta postura afeta o protagonismo e a autonomia das comunidades. Projetos que imponham ações por parte das IES, apesar do objetivo altruísta de beneficiar a comunidade, inibem o protagonismo local. É uma questão ética importante a ser considerada, posto que, tradicionalmente, as IES se veem no papel de detentoras do saber.

A visualização da comunidade como receptora passiva de ações torna a ação desequilibrada, e é construção que tem origem no estereótipo de que grupos minoritários vulneráveis são ávidos por receber sem ter muito o que dar em troca, em um processo de desvalorização dos saberes não universitários.

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A fim de evitar esse viés, é importante que haja cooperação, respeito mútuo e a incorporação dos saberes e experiências locais na construção dos projetos, bem como a criação de espaços para comunicação e escuta ativa. Assim, a meta é a busca por soluções equilibradas, sem paternalismo ou um libertarismo extremo. Parceria e respeito à diversidade são fundamentais, pois somente dessa forma é possível construir soluções conjuntas e transformadoras, já que nem sempre o técnico, apesar de seu conhecimento, está mergulhado na realidade local.

Para que isso seja alcançado é necessária a realização de um diagnóstico do território onde a IES está inserida. O diagnóstico, baseado em dados sociodemográficos obtidos de fontes confiáveis, norteará a IES para que esta possa começar a conhecer seu entorno. Além desses, dados epidemiológicos são fundamentais para a realização de ações de saúde. No entanto, o mais importante é ouvir a comunidade e entender suas necessidades.

A seguir, como exemplos, apresentam-se algumas ações efetivas realizadas com diferentes grupos sociais vulneráveis e minoritários:

  • Universidade e comunidades indígenas: a Universidade Federal de Santa Catarina trabalha com os povos indígenas da região. Para tanto, inicia suas ações conversando com as comunidades, entendendo suas demandas e, a partir daí, elabora projetos. Pontos principais: respeito à autonomia e aos saberes indígenas (inclusive na área da saúde); indígenas como protagonistas, enquanto os alunos e professores atuam como auxiliares; respeito às diferentes culturas com projetos específicos para cada comunidade; conscientização dos educandos sobre mitos, tais como o “bom selvagem” (Castelan, 2024).
  • Trabalho com comunidades rurais na Bahia: essas comunidades apresentam especificidades em seu modo de vida, que foram consideradas pelos educandos da Universidade do Estado da Bahia. Foram abordados temas relacionados à regularização fundiária e ao manejo das áreas coletivas. Com a experiência, houve uma troca de saberes entre os visitantes e a comunidade (Bispo et al., 2020).
  • Centro Universitário de São Paulo: realizou ações interdisciplinares em um equipamento de proteção social voltado para pessoas idosas em situação de vulnerabilidade e risco social. Para tanto, foram ouvidas previamente pessoas idosas e técnicos que trabalham nesses serviços. Para os graduandos participantes, ouvir histórias de vida de outro grupo de pessoas, e poder conviver com elas, mostrou a importância do respeito, da escuta e da empatia (Manso, 2023).
  • A PUC Minas tem diversos projetos e pesquisas focados em pessoas em situação de rua, destacando-se o projeto de extensão “Andanças: população em situação de rua e práticas transdisciplinares”, que trabalha na escuta, acolhimento e promoção da cidadania (Almeida; Cardoso, 2016).

É importante destacar que nem sempre as ações extensionistas são bem-vistas ou deixam de apresentar dificuldades. A Universidade Estadual do Ceará realizou pesquisa com as comunidades circunvizinhas para verificar como estas sentiam e viam as ações de extensão universitária realizadas por seus docentes e discentes. Foram 19 bairros pesquisados, nos quais a comunidade solicitou mais ações que debatessem direitos, cidadania e violências. Foram citadas como dificuldades significativas: ausência de interesse tanto de educandos participantes dos projetos quanto de moradores e a falta de comunicação interna entre os cursos, com ações em duplicata (Fernandes et al., 2012).

Outros estudos também mostram como desafios: a presença de estigmatização dos grupos vulneráveis e paternalização; pouco engajamento por parte dos próprios educadores (por inexistência de projetos em sua área de atuação, desconhecimento das metodologias e, ainda, resistência à dedicação de horas extraclasse para planejamento e implementação das atividades); insuficiente divulgação dos projetos tanto nas IES quanto na comunidade, reduzindo a amplitude de atendimento e o impacto das ações; e a morosidade na elaboração e aprovação de projetos (Santana et al., 2021).

A implementação efetiva da função social das IES ainda permanece, portanto, como um desafio a ser superado. Embora haja avanços importantes na criação de projetos interdisciplinares bem sucedidos, voltados para populações vulneráveis, restam obstáculos relacionados à comunicação, ao envolvimento das comunidades — tanto internas quanto externas às IES —, à superação de estigmas e à resistência institucional.

Somente por meio de integração entre teoria e prática, aliada ao reconhecimento dos saberes locais e à escuta ativa das comunidades, as IES poderão cumprir seu papel de agentes transformadores da sociedade, contribuindo de forma efetiva para a justiça social, a inclusão e o desenvolvimento coletivo.

Referências

ALMEIDA, Bruno Vasconcelos de; CARDOSO, Poliana Renata. Andanças, ruas e afetos: problematizações de práticas extensionistas junto a moradores de rua. Anais do VII Congresso Brasileiro de Extensão Universitária, Universidade Federal de Ouro Preto. 2016.

BANCO MUNDIAL. Desigualdade de renda no Brasil. 2020. Disponível em: https://www.worldbank.org/pt/country/brazil/overview. Acesso em: 20 out. 2025.

BISPO, Rogerio de Souza et al. Experiência de extensão universitária com comunidades tradicionais de Fundo de Pasto. Anais do XI Congresso Brasileiro de Agroecologia, São Cristóvão, Sergipe, v. 15 nº 2, 2020.

BRASIL, 2004. Lei nº 10.861, de 14 de abril de 2004. Institui o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior — SINAES e dá outras providências. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2004/lei/l10.861.htm. Acesso em: 20 out. 2025.

CASTELAN, Daniel Ricardo. Extensão universitária e comunidades de povos originários. Revista Eletrônica de Extensão, v. 21, nº 50, p. 02 10, 2024.

FERNANDES, Marcelo Costa. Universidade e a extensão universitária: a visão dos moradores das comunidades circunvizinhas. Educação rev., v. 28, nº 4, 2012.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 14ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA. IPEA. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios. 2019. Disponível em: https://www.ipea.gov.br/cartadeconjuntura/index.php/tag/desigualdade-de-renda/. Acesso em: 20 out. 2025.

MANSO, Maria Elisa Gonzalez. Projeto de extensão universitária em uma comunidade de pessoas idosas em São Paulo durante a pandemia COVID-19: experiências. PerCursos, Florianópolis, v. 24, e0103, 2023.

MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. 20ª ed. Rio de Janeiro, Bertrand, 2012.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E CULTURA. UNESCO. Conferência Mundial sobre Ensino Superior 2009. As novas dinâmicas do ensino superior e pesquisas para a mudança e o desenvolvimento social. Disponível em: https://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=-download&alias=4512-conferencia-paris&Itemid=30192. Acesso em: 20 out. 2025.

SANTANA, Regis Rodrigues. Extensão universitária como prática educativa na promoção da saúde. Educação Real. v. 46, nº 2, 2021.

SANTOS, Boaventura Souza. A universidade no século XXI: para uma reforma democrática e emancipatória da universidade. São Paulo: Cortez, 2005.

Autora

Maria Elisa Gonzalez Manso
lattes.cnpq.br/3010843907901913

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