Como a interdisciplinaridade transforma a ciência e o cuidado

Imagem de capa: conteúdo gerado por Inteligência Artificial (IA).

m um mundo cada vez mais complexo, os grandes desafios da ciência e da assistência não se limitam a uma única área do conhecimento. A interdisciplinaridade é o caminho necessário para que sejam rompidas as barreiras entre disciplinas, permitindo a criação de soluções mais integrais e humanizadas. Seja na pesquisa científica, no desenvolvimento de tecnologias ou na prática assistencial, a colaboração entre diferentes campos — como saúde, tecnologia, humanidades e ciências sociais — é essencial para que seja possível compreender e enfrentar os problemas de nosso tempo.

A seguir, exploramos como a interdisciplinaridade impacta a ciência e a assistência, destacando os benefícios dessa abordagem e os caminhos para implementá-la de forma eficaz. Porque, quando o conhecimento ultrapassa fronteiras, os resultados podem ser verdadeiramente transformadores.

Saberes que se encontram

A interdisciplinaridade está consolidada como uma abordagem essencial para enfrentar os desafios complexos do século XXI. Integrando conhecimentos de diversas áreas, ela promove avanços científicos, melhora a qualidade da assistência e transforma a formação profissional. Este artigo explora a definição, a importância e os impactos da interdisciplinaridade, além de discutir desafios, oportunidades e tendências futuras.

A interdisciplinaridade é caracterizada pela integração de métodos, teorias e práticas de diferentes áreas do conhecimento para abordar problemas complexos de maneira mais abrangente e eficaz. Segundo Fazenda (2014)1, a interdisciplinaridade envolve um diálogo profundo entre disciplinas, resultando em novos saberes e soluções inovadoras. É essencial para a evolução da ciência e da assistência, pois possibilita enfrentar desafios que ultrapassam as fronteiras de uma única área, como pandemias, mudanças climáticas e desigualdades sociais.

A colaboração entre diferentes áreas é marcada pela complementaridade de saberes. Por exemplo, na saúde, médicos, enfermeiros, psicólogos, nutricionistas, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, farmacêuticos, assistentes sociais, entre outros, trabalham juntos para oferecer um cuidado integral ao paciente. Essa sinergia não apenas melhora os resultados clínicos, como também humaniza a assistência, como destacado por Cecilio e Merhy (2013)2 em um estudo publicado na revista “Saúde em Debate”.

Formação e educação profissional

A interdisciplinaridade impacta profundamente o ensino, desde a formação acadêmica até a prática profissional. Conceitualmente, ela exige uma mudança de mentalidade, incentivando estudantes e profissionais a transcenderem as fronteiras disciplinares, promovendo reflexões sobre a complexidade humana e a ética no cuidado, como discutido por Morin (2015)3 em seu livro “Ensinar a Viver”.

Ainda Morin (1998)4, em “Ciência com Consciência”, nos alerta que a complexidade não pode ser considerada como uma receita nem ser confundida com completude. Ela deve ser encarada como um desafio, uma motivação para pensar, pois é, na verdade, o problema da “incompletude do conhecimento humano” (Morin, 1998, p. 176)4.

Dessa forma, fica bastante claro que nenhum profissional, em nenhuma área, é capaz de oferecer, isoladamente, as respostas necessárias para a compreensão dos fenômenos que lhes são colocados como situações a resolver. É apenas na troca, na construção conjunta de saberes, que se pode chegar a uma aproximação, sempre incompleta, da complexidade dos fenômenos.

– Como a interdisciplinaridade transforma a ciência e o cuidado


No ensino superior, a interdisciplinaridade se concretiza de muitas maneiras: por meio de currículos integrados, atividades práticas, estudos que abarcam várias áreas do conhecimento, atividades que estimulam a colaboração entre diferentes áreas, entre outras. Programas educacionais que combinam ciências da saúde, tecnologia e humanidades preparam os alunos para desenvolver competências essenciais, como pensamento crítico, comunicação e trabalho em equipe. Essas habilidades são fundamentais para atuar em equipes interdisciplinares nos campos da saúde e educação, gestão e demais áreas profissionais.

A formação contínua e o aprendizado colaborativo também são pilares da interdisciplinaridade no ambiente profissional. Segundo Batista e Batista (2015)5, em um artigo publicado na revista “Interface – Comunicação, Saúde, Educação”, a educação interprofissional é crucial para enfrentar os desafios globais da saúde, como o envelhecimento populacional e o aumento das doenças crônicas. A esses desafios apontados pelos autores, juntam se outros tão presentes em nossos tempos, como as questões climáticas, o negacionismo científico, a instabilidade socioeconômica etc.

Desafios e oportunidades na educação para a colaboração

Apesar dos benefícios, a interdisciplinaridade pode enfrentar barreiras institucionais, como a rigidez dos currículos tradicionais, a busca de delimitação de fronteiras entre os diversos campos de conhecimento, além da resistência à mudança de paradigmas. Para superar esses obstáculos, é necessário adotar modelos educacionais que incentivem a colaboração desde a formação acadêmica. Um exemplo é a integração de disciplinas como ética, tecnologia e gestão em cursos de saúde, como sugerido por Costa e Silva (2017)6 em um estudo sobre educação interprofissional publicado na revista “Trabalho, Educação e Saúde”.

Também a ampliação das práticas interprofissionais, nos diversos campos do conhecimento, é fundamental para que os estudantes tenham a compreensão de que somente a colaboração torna possível atingir os melhores resultados.

A interdisciplinaridade supõe a eliminação da hierarquia entre os saberes, entender que nenhum saber é hegemônico, nenhum saber é mais importante. Pressupõe a humildade de entender que eu posso e devo aprender com o outro.

Impacto nas políticas públicas

A interdisciplinaridade também influencia na formulação de políticas públicas mais eficazes. Em áreas como saúde, educação e meio ambiente, a colaboração entre diferentes disciplinas permite criar soluções mais abrangentes e sustentáveis. Um exemplo é o Programa Saúde da Família (PSF) no Brasil, que integra conhecimentos das diversas áreas para promover a saúde comunitária.

A colaboração entre disciplinas também amplia o impacto das práticas assistenciais. Por exemplo, a integração de tecnologias digitais e ciências sociais tem permitido o desenvolvimento de programas de telemedicina e plataformas de gestão comunitária, que melhoram o acesso aos serviços de saúde em regiões remotas, como destacado por Santos et al. (2018)7 na revista “Ciência & Saúde Coletiva”.

Os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS) – universalidade, equidade e integralidade –, definidos na Constituição Federal de 1988, apontam claramente para a pertinência e necessidade do trabalho interdisciplinar, sem o qual o acesso ampliado à saúde seria impossível. São eles: universalidade, que garante que todos os brasileiros tenham direito à saúde, sem distinção; equidade, que busca garantir que quem mais precisa receba a atenção adequada; e integralidade, que assegura que o atendimento seja completo, desde a prevenção até a reabilitação.

Futuro da colaboração na ciência e na assistência

O futuro da interdisciplinaridade está marcado por tendências emergentes, como a integração de inteligência artificial, big data e ciências sociais para enfrentar desafios globais. A cooperação entre diferentes setores será cada vez mais essencial para lidar com crises como pandemias, mudanças climáticas e desigualdades sociais.

Como destacado por Fazenda (2014)1, a interdisciplinaridade é o caminho para construir um futuro mais sustentável e equitativo. Ao integrar saberes e práticas, podemos promover avanços científicos significativos e oferecer um cuidado mais humano e eficaz.

Referências
  1. FAZENDA, Ivani. Interdisciplinaridade: história, teoria e pesquisa. 18ª ed. Campinas: Papirus, 2014. Disponível em Amazon e Google Books. ↩︎
  2. CECILIO, Luiz Carlos de Oliveira; MERHY, Emerson Elias. A integralidade do cuidado como eixo da gestão hospitalar. Saúde em Debate, 2013. Disponível em: https://www2.hmdcc.com.br/wp-content/uploads/2018/04/Cecilio-AINTEGRALIDADE-DO-CUIDADO-COMO EIXO-DA-GEST%C3%83O-HOSPITALAR.pdf. Acesso em: 14 abr. 2025. ↩︎
  3. MORIN, Edgar. Ensinar a viver: manifesto para mudar a educação. Tradução de Edgard de Assis Carvalho e Mariza Perassi Bosco. Porto Alegre: Sulina, 2015. ↩︎
  4. MORIN, Edgar. Ciência com consciência. Tradução D. Alexandre. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998. ↩︎
  5. BATISTA, Nildo Alves; BATISTA, Sylvia Helena. Educação interprofissional na formação em saúde: percepções de docentes. Interface – Comunicação, Saúde, Educação, 2015. Disponível em: SciELO Brasil – Educação interprofissional na formação em saúde: tecendo redes de práticas e saberes. Acesso em: 14 abr. 2025. ↩︎
  6. COSTA, Maria Vilani Cavalcante; SILVA, Maria Rocineide Ferreira da. Educação interprofissional no SUS: desafios e perspectivas. Trabalho, Educação e Saúde, 2017. ↩︎
  7. SANTOS, Alessandro Oliveira et al. Telemedicina no Brasil: conceitos, aplicações e pesquisas. Ciência & Saúde Coletiva, 2018. ↩︎
Autores

Celina Camargo Bartalotti
lattes.cnpq.br/8939764689257108

Bruna San Gregório
lattes.cnpq.br/6153204790976092

Gláucia Rosana Guerra Benute
lattes.cnpq.br/1000571813063485

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